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quarta-feira, 21 de maio de 2014

bring the drugs, baby

as mãos dele dançavam contra o meu corpo, percorrendo a distância entre as minhas ancas e a minha cintura, enquanto os seus lábios queimavam a pele do meu pescoço. o seu toque, gentil mas demorado na minha pele, parecia adaptar-se perfeitamente a cada parte de mim. a claridade diminuta no quarto ajustava-se ao seu corpo, permitindo-me admirar os contornos impecavelmente definidos do seu tronco. e, o que luz não deixava ver, as minhas mãos sentiam. com beijos suaves, deixei-o delinear apenas a parte mais superficial do meu corpo: onde ele tocava iniciava-se uma corrente de fogo que parecia capaz de incendiar todo o quarto.
gradualmente, os beijos suaves deram lugar a beijos urgentes, intensos, ofegantes. a dada altura, deixou de existir um ele ou um eu, apenas um nós. deixei de conseguir distinguir onde eu começava e ele acabava, existíamos como um só. naquele momento, estava inexoravelmente entregue a ele.
os seus dedos não se entrelaçaram nos meus, não afagou o meu cabelo e os seus olhos não se demoraram nos meus mais do que dois segundos. também não queria que o tivesse feito. tal exige que entre nós exista algum tipo de afecto e eu nego-me a aceitar isso. a nossa relação provém, simplesmente, de um desejo físico que consome ambos de uma maneira tão intensa que se torna impossível de ignorar. o meu corpo anseia pelo dele, no entanto as nossas almas encontram-se o mais distantes possível. enquanto isto for verdade, posso considerar que estamos a salvo, continuaremos livres.

sábado, 29 de março de 2014

we are the wild youth

quando somos pequeninos, o mundo parece-nos um lugar muito grande. um lugar com milhões de sítios inexplorados, um lugar onde vês pessoas novas todos os dias, onde tens algo novo para conhecer sempre que sais de casa. no entanto, à medida que crescemos, percebemos que não é bem assim. o mundo é, na realidade, bastante pequeno: o rapaz de quem a tua amiga te falou é teu vizinho; a minha prima anda com a amiga da minha amiga na escola; o pai do teu amigo é amigo do teu pai. pessoas, sítios que, à partida, em nada se relacionam estão ligados de alguma maneira. quando sais à rua, encontras as mesmas caras de sempre. à medida que crescemos, o mundo mingua e vamos ficando tão grandes como as árvores, as casas, os países, os continentes e os oceanos que nos rodeiam.
talvez seja esse o problema, tornamo-nos tão grandes que, simplesmente, deixamos de caber no mundo. aí, limamos todas as arestas (e, por vezes, mais do que apenas as arestas) que temos numa tentativa vã de voltar a encaixar no mundo. mas perder a nossa identidade não nos torna mais pequenos, torna-nos, no melhor dos casos, mais vazios ainda. o volume mantém-se, a massa diminui, ficamos ocos.
se pensarmos nisto torna-se algo quase ridículo. afinal, existimos apenas num sítio. temos 6 continentes, 193 países, 7 mil milhões de pessoas, 510 milhões de km² de Terra por conhecer. somos, realmente, tão pequenos como inicialmente parecíamos. a chave é nunca nos esquecermos disso.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

you're in my blood, you're my holy wine

parecia aliviado enquanto saboreava sua cuba libre - a terceira da noite - acompanhada de alguns amendoins salgados. a sua cabeça abanava subtilmente ao som da música, the white stripes tanto quanto me consigo lembrar. os seus dentes perfeitamente alinhados mostraram-se quando um sorriso rasgado lhe aflorou os lábios, enquanto envolto nos seus pensamentos.
também eu bebia: talvez na esperança que o entorpecimento me permitisse abordá-lo, talvez apenas porque me apetecia. não fazia muitas coisas apenas porque me apetecia, mas, naquele momento, não importava. eu não importava, o casal que discutia na mesa ao lado não importava, o senhor que oferecia bebidas às raparigas que passavam não importava, só ele importava. levantei-me, já algo fora de mim, e fui até à sua mesa. não percebi o que é que ele fitava, no entanto não pareceu reparar em mim. sentei-me à sua frente e suspirei, só aí pareceu despertar do seu transe. encarou-me e voltou a sorrir. imitei-o, talvez a tal felicidade fosse aquilo. não sabia e não me interessava, ainda hoje não interessa. estávamos ambos bêbados e sorríamos sem motivo aparente. para mim, era suficiente.

sábado, 19 de outubro de 2013

love me, love me not

- já esteve apaixonada? - perguntou, tentando, talvez, saber mais do que aquilo que podia.
- já...
- e estava apaixonada pela pessoa ou pela ideia que fazia dela? - investiu de novo, outra vez de maneira demasiado ambiciosa.
aí, calei-me e refleti. inutilmente, porque a resposta sempre fora mais do que clara para mim. apaixonei-me pela ideia que fiz de ti no segundo em que os nossos olhos se encontraram. apaixonei-me pela maneira como sorrias e pelas coisas que pensei esconderes por trás desse sorriso. apaixonei-me pelo que diziam de ti. apaixonei-me pelos pequenos fragmentos do teu ser que conseguia apanhar. apaixonei-me pela maneira como a roupa preta complementava o tom da tua pele. apaixonei-me pela tonalidade que os teus olhos adquiriam ao refletir o sol. apaixonei-me pela maneira como afastavas o cabelo da cara. apaixonei-me pela maneira como parecias não te importar com nada. apaixonei-me ao ponto de não suportar estar à tua beira e, muito menos, longe de ti. apaixonei-me pelo que os meus olhos viam e pelo que a minha mente imaginava. às vezes, e só mesmo às vezes, ainda acho que estou apaixonada. e talvez até esteja, só que não é, nem nunca foi, por ti.
encarei-a apenas com a sombra de um sorriso a aflorar-me o rosto.
- pela pessoa. - respondi, mentindo mais uma vez.

domingo, 11 de agosto de 2013

look to the sky, you can see me falling

- soube-o no segundo em que os vi. era a maneira como ele olhava para ela, sabes? como se estivesse a olhar para o mundo, o seu mundo. a química é algo inexplicável. algo que não se pode forçar e que se manifesta inexoravelmente.  nem todas as pessoas têm essa sorte. e as poucas que têm nem sempre o sabem aproveitar, nem sabem o quão sortudas são, na maior parte dos casos! - a sombra de um sorriso aflorou-lhe o rosto  - mas ela sabia.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

where is my mind

o sol brilha e as flores começam, talvez um pouco tarde, a desabrochar. campos verdes, cheios de esperança, figuram à minha frente. o cheiro a alfazema inunda o ar, trazendo um enorme sentido de possibilidade. o tempo parece ter parado, enquanto me encontro no meio desta agradável paisagem. olho para o lado e lá estás tu. sorrimos. somos livres. somos felizes.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

i remember you well

a chuva secou e com ela foram as lágrimas. as intensas mas fugazes paixões de primavera desapareceram. devo corrigir-me. as paixões não desapareceram, foram, de certo modo, arrancadas. no seu lugar, deixaram um vazio. um vazio tão grande que me preenche a alma, dificulta a tarefa de respirar e tenta engolir o meu coração. 
agora, com o sol a aquecer-me a face e com o verde do campo a preencher-me a vista, quase consigo esquecer. quase que consigo ignorar a insistente dormência que se apodera de mim. 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

i am a lonely painter, i live in a box of paint

olho em redor e não reconheço ninguém. as caras são-me familiares, no entanto, as suas expressões e o seu olhar não me podiam ser mais desconhecidos. paira no ar um clima estranho, algo hostil até, podia jurar. massajo as têmporas, na esperança de atenuar a minha cabeça latejante. preciso de me concentrar. os estranhos tentam interagir comigo, que será que querem de mim? esforço-me mas o som que lhes sai da boca não chega aos meus ouvidos, também doridos. estou presa, ou, pelo menos, parece-me que sim. não me consigo mexer mas não há nenhum objeto físico que me impeça. concentra-te. organizo os meus pensamentos: onde estou e como é que vim aqui parar? não sei. porquê que me encontro rodeada de estranhos que tentam falar comigo? não sei. porquê que não me consigo mexer? não sei. o que é que eu sei? nada.

domingo, 7 de abril de 2013

we've got tonight

beijam-se. devem ter os seus 14/15 anos, dizem-se apaixonados. rio-me amargamente, se ao menos eles soubessem. o rapaz segura firmemente as costas da rapariga, enquanto esta passa os dedos pelo cabelo despenteado do rapaz. pergunto-me se eles se conhecem sequer. sim, devem saber o nome um do outro e provavelmente até as preferências musicais mas que mais saberão? pouco, penso eu. como todos os jovens as suas conversas baseiam-se em trivialidades. contudo, estão apaixonados. rio, uma vez mais, com a ingenuidade das crianças que se pensam já adultas.

terça-feira, 26 de março de 2013

hello, i love you, can you tell me your name?

observava-o há já algum tempo. mexia-se desajeitadamente, tentando dançar. era um espectáculo algo cómico, confesso. não sei quantos copos já bebera, ou que outras substâncias ingerira, mas estava feliz. notava-se. a sua aura era contagiante. a felicidade não me era familiar, visto que nunca estivera rodeada por pessoas felizes. a minha mãe costumava dizer que ser feliz era para os tolos, as pessoas a sério tinham era de trabalhar. «a felicidade não te vai pagar as contas», repetia ela. creio que sempre acreditara nisso, talvez por falta de exemplos que o desmentissem, até aquele momento. o rapaz que dançava despreocupadamente, irradiando alegria, não era tolo.
suspirei demoradamente. gente daquela não era para o meu bico, dizia também a minha mãe.

sábado, 9 de março de 2013

i wish i'd been a teen idol

olhas para trás e vês a tua inocência, agora perdida, nos campos verdes onde passaste a tua infância. vês uma criança, ainda cega para o mundo, a sorrir para as nuvens. vês-te no colo dos teus pais, no lugar mais seguro que alguma vez conheceste. vês-te a chorar porque o teu brinquedo favorito se estragou e sorris amargamente. quando é que tudo mudou? quando é que o mundo perdeu o brilho e os dias se tornaram cinzentos? não sabes. estás perdido na escuridão há tanto tempo que já não vês maneira de te libertar da mesma. sentes que os últimos pedaços de ingenuidade que te restavam queimam, agora, na lareira mesmo à frente dos teus olhos. mas não o podes impedir.
agarras-te ao passado porque o presente não tem nada para ti. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

cenas da aula de inglês

i hide behind little jokes
and soft smiles
wondering if when
your eyes meet mine
you will want to be
my valentine.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

porque não?

a escuridão envolvia-me. encontrava-me à beira dum precipício, tão sozinha como sempre estivera. apenas elas me acompanhavam. respirava pesadamente, enquanto lágrimas me deslizavam pelo rosto. olhei para trás e um fraco sorriso de resignação cresceu nos meus lábios vermelhos. ninguém estava lá, ninguém se importava. nem eu me importava. o coração pesava-me no peito. tremia, incapaz de controlar as trevas que ocupavam a minha mente. uma dormência deturpava-me a alma. um passo e acabava tudo. um passo e elas calavam-se. um passo e o meu coração partido deixava de me fustigar.
salta - as suas palavras ecoavam dentro de mim. respirei fundo e deixei o ar sujo encher-me os pulmões. a ideia da minha existência repugnava-me e não parecia agradar a ninguém. porque não acabá-la ali?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

está frio lá fora

as gotas da chuva caem no jardim
e tu ainda não voltaste.

o chá arrefeceu e o sol nasceu
e tu ainda não voltaste.

as pequenas flores desabrocharam
e tu ainda não voltaste.

os segundos passaram no velho relógio de parede
e tu ainda não voltaste.

o primeiro floco de neve caiu
e o teu perfume extinguiu-se do ar.

mas não consigo deixar de te esperar.